21.8.12

O dia sem fim - ou como chegamos à Cuzco de Rio Branco por transporte alternativo - parte II

Como falamos no post anterior, quando chegamos à fronteira do Brasil conseguimos pegar logo uma van com um Peruano que estava lá. Ele nos cobrou 35 soles por pessoa para fazer o transporte Iñapari - Puerto Maldonado. Acertamos e fomos com ele. Passamos pela imigração do Peru, onde também foi bastante tranquilo e lá mesmo fizemos o câmbio.

O que descobrimos depois de entrar na van, é que ele só partiria quando tivesse a lotação. Então ele ficou rodando pela cidade até que parou na frente de uma delegacia e começou a gritar "Puerto, Puerto, Puerto". Em seguida entrou na Van um preso algemado, junto com um policial e sentaram do nosso lado. Foi bizarro e assustador ao mesmo tempo. Ficamos sem reação. Não acreditávamos no que estava acontecendo. Ficamos uns 15 minutos lá parados esperando, porque ainda ia entrar outro policial. O clima estava tenso e até pensamos em ir em outra van, que estava parada atrás da que estávamos (será que na frente da delegacia é o melhor ponto para pegar passageiros?).
No fim das contas, o outro policial não pôde sair naquele momento, então o preso e o policial que o acompanhava desceram e seguimos a viagem sozinhos e aliviados. 

Passado quase uma hora, chegamos à Iberia, uma cidade distante cerca de 50 km de Iñapari, onde o motorista da van parou e praticamente queria nos forçar a almoçar para ele poder esperar mais passageiros. Até que estávamos com fome, mas olhando ao redor, não tinha condições nenhuma de comer absolutamente nada. Não temos muita frescura para comida, mas as condições de higiene dos lugares que a gente olhava pareciam ser tão duvidosas, que não tivemos coragem. Preferimos passar fome (e passamos mesmo...).

Após meia hora de enrolação, o motorista resolveu sair pela cidade gritando "puerto, puerto, puerto" (depois descobrimos que isso é muito normal no Peru) e as pessoas foram se juntando a nós na viagem. E foi assim durante as 3 horas e meia até Puerto maldonado. No caminho, subia e descia gente o tempo todo e fomos espremidos o quanto deu. A estrada estava muito bem conservada, porém nem o motorista, nem ninguém usava cinto de segurança (acho que nem tinha cinto. E mesmo se tivesse, tinha tanta gente, que não daria para usar) e parece que a cada placa de "não ultrapasse" estava escrito ao contrário. A viagem foi tensa e desconfortável, tocava músicas bizarras no rádio (exemplo: uma imitação de Justin Bieber, cantado em espanhol muito desafinado) além de ter demorado bem mais que o previsto.

Quando chegamos à Puerto Maldonado, foi um alívio para nossas pernas e coluna. O motorista parou em frente a uma espécie de borracharia e mandou todo mundo descer. Perguntamos onde era que poderíamos comprar a passagem de ônibus para Cuzco e ele apontou para frente (nenhum lugar em específico) e disse algo do tipo mais para frente. Acontece que o "mais para frente" nunca chegava (e você não imagina o quanto algo pode ficar distante quando a sua mochila esta pesando nas costas e sua barriga doendo de fome) e ninguém sabia nos informar direito onde era. Até que chegamos em uma rua e fomos "atacados" por pessoas querendo vender passagens de ônibus para Cuzco. Ofereciam por todos os preços: 35, 40, 50 soles, com vista panorâmica (vista panorâmica para uma viagem feita a noite e de madrugada...oi?), calefação, etc. Todo mundo falando de uma só vez, um gritando mais alto que o outro, dispostos a negociar preços, mas estávamos decididos a pegar o ônibus da Movil Tours, que foi muito bem indicado e isso que fizemos! A passagem saiu mais cara que as outras que nos foram oferecidas (70 soles cada uma), porém era ônibus leito e a empresa parecia ser mais confiável.

A saída do ônibus da Movil estava prevista para as 20:30 e saiu no horário certo. A rodoviária fica um pouco afastada da cidade e você necessariamente tem que pegar um táxi para chegar lá (paga-se cerca de 10 soles - sempre negociando com o taxista antes de entrar no carro). Antes de ir para a rodoviária fomos procurar algum lugar para comer. Que dificuldade! Era cerca de cinco da tarde e não tinha 'restaurante' servindo comida (estava tarde para o almoço e cedo para o jantar). Andamos mais um pouco e encontramos uma espécie de fast food de frango (chamado leña e Sazón). O lugar parecia higiênico, o frango estava maravilhooooso (para quem não comia desde as sete da manhã) e  o preço bom (cerca de 17 soles o prato de pollo com papas - que dividimos - e mais os refrigerantes). Depois disso ainda fomos comprar mantimentos para a viagem - biscoitos, chocolates e água e partimos rumo a rodoviária.

Sobre a rodoviária, como em todas que andamos no Peru, era caótica e parece que o único destino das pessoas que estavam lá era Cuzco. Ônibus saindo a todo momento e gente de diferentes empresas gritando, oferecendo passagens. Lá também vendiam soroches pills, para o mal de altitude.

Para "embarcar'  era preciso pagar uma taxa de embarque (1 sole por pessoa). Assim fizemos e entramos no momento que fomos chamados. Entregamos as mochilas para guardar no bagageiro e recebemos um ticket para entregar na hora que fossemos pega-las (isso poucas empresas no que andamos no Peru fazem - geralmente você entrega a sua mochila e reza para que ainda esteja lá na hora que você chegar ao seu destino). O ônibus era limpo, tinha uma manta quentinha e nos ofereceram até um lanche (biscoito, pão de fruta e inka cola). O único inconveniente é que esquentou muito durante a viagem, pensávamos que íamos passar frio, mas pelo contrário, fomos nos desfazendo dos casacos e meias ao longo da noite.

Apesar do cansaço, foi meio difícil de dormir. Estávamos com medo do mal de altitude, tínhamos lido relatos de pessoas que fizeram essa viagem de ônibus e acordaram de madrugada com fortes dores de cabeça, fora que durante a subida, o ônibus ia em alta velocidade pelas inúmeras curvas e deu bastante medo (só lembrávamos que tinha um precipício enorme bem do nosso lado). porém, em determinado momento o cansaço finalmente nos venceu e conseguimos dormir (e ninguém passou mal durante a subida).

Antes do nascer do sol, sentimos o ônibus parando e fomos avisados que tínhamos chegado em Cuzco. Uma viagem tão longa e cansativa e finalmente estávamos em Cuzco! Escura e silenciosa, ainda sem revelar a sua beleza. Difícil de acreditar que existia, que tínhamos conseguido chegar lá. Foi uma sensação incrível! Nos sentíamos vitoriosos.


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